domingo, 29 de novembro de 2020
quinta-feira, 26 de novembro de 2020
segunda-feira, 23 de novembro de 2020
BATE-PAPO EM VERSOS COM VARNECI NASCIMENTO, CORDELISTA
BATE-PAPO EM VERSOS COM VARNECI NASCIMENTO, CORDELISTA
Entrevistador: Gilberto Cardoso dos Santos (GCS); Entrevistado: Varneci Nascimento (VN)
GCS: Varneci, eu o convido
A fazermos um cordel.
Eu como entrevistador,
Você, dentro do papel
De um ilustre entrevistado,
Cordelista respeitado,
Palestrante e menestrel.
VN: Com o desafio aceito
Agradeço esta proposta.
Conversar com poesia
É coisa para quem gosta.
Vai ser um diálogo incrível,
Pois vou fazer o possível
Para dar boa resposta.
GCS: Vamos começar falando
De seu tempo de criança.
Quais as mais vivas memórias
Que você traz na lembrança?
Fale do “lar, doce lar”,
Da família e do lugar,
Da escassez ou da bonança.
VN: O meu lar foi de bonança,
De memórias afetivas
De paz, de tranquilidade,
De cenas tão formativas.
Paisagens que enternecem
Ao ponto que permanecem
Hoje em dia muito vivas.
GCS: Como se desenvolveu
Seu amor à poesia?
No seu tempo de moleque,
Que tipo de coisas lia?
Existe, em suas memórias,
Gente que contava histórias,
Às quais com prazer ouvia?
VN: Repente feito na roça
No trabalho da cultura
O cordel fez-se presente
Trazendo a literatura.
As histórias de cordel
Fizeram-me um menestrel
Alguém sensível à leitura.
GCS: Fale-nos de sua saga
Do primário à faculdade
Queria ser professor,
Ou nunca teve vontade?
Era um aluno aplicado?
Tudo que havia sonhado
Se tornou realidade?
VN: Banzaê e Paulo Afonso
A primeira formação.
Depois Guarabira deu-me
A maior diplomação.
De tudo quanto sonhei
Confesso, não alcancei,
Mas estou na direção.
GCS: Como chegou a tornar-se
Cordelista de sucesso?
Relate desde o início,
Como se deu seu progresso.
Como à LUZEIRO chegou,
E as alturas que alcançou,
Às quais poucos têm acesso.
VN: Numa busca incessante,
Cheia de tanta labuta
Para chegar a Luzeiro
Foi por talento e conduta.
Como a vida é um caminho
Continuo devagarinho
Metido na mesma luta.
GCS: Fale dos paradidáticos
Que você tem publicado
- Versões em cordel de clássicos
Que a tantos têm agradado.
Na sua origem, o cordel
Tinha este mesmo papel
Ao qual tem se dedicado?
VN: Fazer os paradidáticos
Eu acho muito instigante,
Como histórias autorais,
Considero interessante.
Pois sendo literatura
O cordel a essa altura
Sofre mudança constante.
GCS: Fale de outras obras suas
E também da mais recente
Que fala sobre Jesus
E agradou a tanta gente.
Pra Varneci Nascimento,
De onde vem o seu talento?
É só técnica ou dom latente?
VN: Meu primeiro livro em prosa
Falando de Jesus Cristo.
Graças a Deus agradou
E está sendo bem visto.
Ser cordelista é tão bom
O qual acho que é um dom
Já no talento eu invisto.
GCS: Quero que nos fale um pouco
Dos famosos cordelistas,
De cordéis imprescindíveis
Segundo os especialistas
E fale um pouco também
Do papel que o cordel tem
Na luta contra os fascistas.
VN: Leandro Gomes de Barros
Com seu Boi Misterioso
José Camelo de Melo
Fez cordel maravilhoso.
Já os cordéis de política
Servem para fazer crítica
Ao fascismo tenebroso.
GCS: O cordel já foi chamado
De subliteratura,
No entanto cada vez mais
Seu lugar ele assegura
Dentro da academia.
O que Varneci diria
A quem mantém tal postura?
VN: É uma postura errônea
E bastante equivocada.
Que a grandeza do cordel
Constantemente é provada
Quem o julga desta forma
É porque não se conforma
Com sua força elevada.
GCS: Quero que você nos mostre
Os valores do cordel
E da história do gênero
Trace um sucinto painel
Ninguém melhor que você
Que tal tema sempre vê
E de História é bacharel.
VN: Seu valor imensurável
Hoje é um fato inconteste
Surgiu há mais de cem anos
No nosso lindo Nordeste.
Contestar sua importância
É se manter a distância
Desta poesia celeste.
GCS: O que pensa do rigor:
“Métrica, rima e oração”,
Que nos grupos de cordel
Gera tanta discussão?
A silábica contagem
Para você é vantagem,
Ou gera limitação?
VN: É justamente o rigor
Que faz toda diferença.
Quem não quiser respeitá-lo,
Que o esforço não compensa.
Não diga que faz cordel
Nem se nomeie menestrel
Que o cordel lhe dispensa.
GCS: Amigo, foi um prazer
Poder lhe entrevistar.
Já li alguns livros seus
E achei espetacular.
A alguns, findei relendo.
Finalize nos dizendo
O que o coração mandar!
VN: Nosso Cordel Brasileiro
Não aceita vilipêndio.
Quando ele atinge um poeta
No seu corpo causa incêndio,
Pois assim quem quer honrá-lo
Certamente vai tratá-lo
Seguindo todo o compêndio.
A grandeza imensurável
Deste gênero literário
Deverá ser estudada
Porque será necessário
Espalhá-lo pelo mundo
O seu conceito profundo
E tão extraordinário.
Meu caro amigo Gilberto
Agradeço a entrevista
Cada pergunta bem feita
Trouxe-me uma nova pista
Para pensar no que faço
E buscar maior espaço
Para a arte ser mais vista.
GCS: Eu que agradeço a você
Por aceitar a proposta
Você é uma autarquia
Palavra que tanto gosta
De fato uma sumidade
E mostrou habilidade
Poética em cada resposta.
entrevista em versos com o poeta ademar macedo - blog da apoesc
ENTREVISTA EM VERSOS COM DALINHA CATUNDA - blog da apoesc
BLOG DA APOESC: MARCO HAURÉLIO: ENTREVISTA EM VERSOS SOBRE ...apoesc.blogspot.com/2017/11/marco-haurelio-entrevistado-em-versos.html
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BLOG DA APOESC: ENTREVISTA em versos COM JOSÉ ACACI
quinta-feira, 19 de novembro de 2020
OS VERSOS FALHOS DE LEANDRO GOMES DE BARROS - Gilberto Cardoso dos Santos
No dia dedicado aos cordelistas, (19 de novembro de 2020), alguém me mostrou o seguinte poema, da autoria de Leandro Gomes de Barros:
Se eu conversasse com Deus
Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?
Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?
Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?
Falamos da beleza e da profundidade das estrofes, mas comentamos sobre algumas falhas, imperdoáveis à luz das regras do cordel em seu estágio atual. O poema não é um cordel, devido a extensão, mas o fato dele ter se destacado como o maior cordelista, acaba influenciando o julgamento de tudo que ele escreveu.
Rima, métrica e oração são os 3 pilares que regem a produção de um bom cordelista. Quanto à oração, nada há a se ressaltar de negativo nesses versos. Mas ele "peca" na rima e na métrica, levando alguns a questionarem suas habilidades poéticas e importância.
Enquanto conversávamos, lembrei de outros erros cometidos por ele, por exemplo, em "História do boi misterioso": rima de "lobisomem" com "nome"; "Calixto", rimando com "bonito" etc.
E o amigo interrompeu meu fluxo de pensamentos chamando a atenção para o último verso da primeira estrofe: "Que a gente tem que morrer pra pagar?"
Um verso de pé-quebrado, sem dúvida, à luz das regras da UBT e da essência do cordel. Se no verso apontado temos sílabas demais, no anterior temos de menos: "Que dívida é essa". Rimar "perguntar" com "cá" é inaceitável para um cordelista.
E o amigo, que é xilógrafo e não cordelista, perguntou-me se teríamos como consertar esse verso com dez sílabas. Disse-lhe que sim e ele quis saber como ficaria.
Improvisei uma resposta para o que me pedia (apontei uma possível solução), mas disse-lhe que jamais ousaria mexer num poema do patrono do cordel. Acho positivo, disse-lhe, que tais poemas permaneçam como foram escritos a fim de fazer barreira ao excessivo zelo dos cordelistas que assumem ares farisaicos na defesa da métrica e da rima. Estes, como regra, produzem versos bem rimados e metrificados, mas pobres de sentido.
O problema dos dois últimos versos da primeira estrofe são fáceis de resolver, sem acréscimos de nossa parte. Bastaria deslocar parte do verso final para o penúltimo:
"Que dívida é essa que a gente
tem que morrer pra pagar?"
Não sabemos se essa falha na versificação foi cometida pelo autor ou por quem copiou seus versos.
O que importa mesmo em qualquer gênero poético é a oração. A produção de Leandro é de caráter "naif", reveladora de sua genialidade, bem como das deficiências de seu autodidatismo. Tem a sustentável e equilibrada leveza do ponto de transição entre a oralidade e a escrita. É bom ter em mente que Leandro era "humano, demasiado humano", como nós.
Antes que mal me entendam, sou adepto das ideias favoráveis ao gênero. Não se pode exigir de todos que versejem à maneira de Leandro, pois a produção cordelística de cada um refletirá sua formação diferenciada e personalidade. Nada contra os ideais de perfeição métrica e de rima consoante, a isso também persigo. Só não quero é uma poética vazia.
Viva Leandro Gomes de Barros! Viva a simplicidade do cordel!
Gilberto Cardoso dos Santos
Mestre em Literatura e Ensino, Membro da ANLiC (Academia Norte-rio-grandense de Literatura de Cordel), sócio e fundador da APOESC (Associação de Poetas e Escritores de Santa Cruz - RN), autor do livro Um Maço de Cordéis, Lições de Gente e de Bichos.









